terça-feira, 2 de novembro de 2010

Do prazer da leitura

Sou leitora voraz, desde os meus tenros 6 anos de idade. E lá se vão décadas e décadas entre aquele começo e os dias de hoje. Pois ao longo de todo esse tempo tive medo de alguns autores, algumas vezes. Isso mesmo. Evitei, deliberadamente, algumas obras. Burrice pura, mas aconteceu.

Foi assim com Clarice Lispector (Oh!). É! Essa mesmo! Na adolescência, tive um livro dela, que ficou na estante anos após anos. Dançou entre meus dedos inúmeras vezes, e voltou para a prateleira, virgem dos meus olhos. Só muito tempo depois, já na Faculdade, tive coragem de abrir Clarice. Ah! Que delícia ME descobrir naquelas páginas. Como boa compulsiva, li tudo que tivesse a assinatura dela. E amei. E decidi não fugir de mais nenhum autor.

No entanto...

Continuei evitando Saramago por mais alguns anos, até que Ensaio Sobre a Cegueira caiu no meu colo. Mais precisamente na minha tela, já que foi um e-book que eu baixei e fiz o "sacrifício" de começar a ler. O tal "sacrifício" virou prazer rapidinho, e me tomou uma noite inteira. Sim, li este livro em especial, com a luz do computador ferindo-me os olhos, uma noite bem inteirinha. Terminei de ler às 7 horas da manhã. Completamente extasiada. Tão encantada, que pensei nele o dia todo. E as próximas duas noites foram dele, de novo. Loucura? Talvez (bem, eu nunca quis ser mentalmente sadia!).

Acreditei que não aconteceria de novo.

Ledo engano.

A noite passada trouxe de volta essa gana por uma boa leitura. Interessante que não foi o tipo de livro com o qual estou acostumada. Aliás, o próprio título já me afastaria, normalmente: DANÇANDO VALSA NOS SALÕES DO INFERNO, de Maicknuclear DeLos Santos Angeles. Mesmo assim, e a despeito da minha própria expectativa, tive uma vontade irresistível de, ao menos, começar a ler. Surpresa! Quase 8 horas da manhã, e eu terminava o que havia começado na madrugada de ontem (quer dizer, no início de hoje).

Decididamente, não é a literatura que faz parte do meu mundo. Crua. Extremamente realista. E me incomoda, me deixa desconfortável. Talvez daí tenha me prendido tanto. Maicknuclear fala de um mundo que desconheço, de um cotidiano que me é totalmente estranho, embora eu saiba existir. E, no meio de uma narrativa que tinha tudo pra ser pesada (mas não é!), pincela filosofia e lirismo na dose exata. O suficiente pra me prender, pra amarrar minhas pupilas às páginas virtuais e só soltar os nós no epílogo. 

Inteligente. 

Esta noite, tenho um encontro marcado com o mesmo livro. Preciso conferir se não deixei escapar nada, da maravilha que caiu nos meus arquivos. Aliás, espero que alguma Editora seja esperta o bastante pra publicar essa obra. Quero-a em papel, devidamente autografada, com dedicatória e tudo, e quero o prazer de escrever minhas impressões nas margens (adoro "conversar" com os autores...rs).

E quero que tu também tenhas o privilégio de ler e desejar o livro impresso. Até lá, aproveita o e-book: http://www.scribd.com/doc/39831116/Dancando-Valsa-Nos-Saloes-Do-Inferno

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Salas.... de espera

Salas de espera são impacientes. Balançam, nervosamente, braços e pernas, como se isso ajudasse a passar o tempo, que não passa; ao contrário, estaciona n'algum parapeito de janela, e fica a olhar as moçoilas e seus cabelos esvoaçantes, ao vento primaveril de outubro. Nem aí pras salas....que esperam...
Constrangedoras, as salas de espera olham para os lados, folheiam revistas novas, mastigam jornais velhos e suas notícias ultrapassadas, assistem TV a cabo, como se isso diminuísse a agonia, encaixada nos copos descartáveis, nas águas geladas, nos chás mornos, nos escaldantes cafés exageradamente açucarados. Nem aí pras salas... que esperam...
Salas de espera são assustadoras. Ensaiam caretas, inventam fantasmagóricos sons abafados, roteiros de filmes de terror, campeões de bilheteria. Nem por isso de qualidade garantida.
São amarelas. São brancas. São assépticas. Antissépticas. Medrosas.
Salas de espera são medrosas. Roem as unhas. Piscam os olhos. Viram as unhas. Desfiam os olhos. Disfarçam os tremores, que os joelhos batem e os ombros retesam, prendendo os nervos debaixo da pele.
Salas de espera são carne viva aos pedaços. Pulsações em alto e bom som. Corações disparados. Gotículas de suor, mal disfarçadas nas têmporas. Que tremem.
São esperas. Globos oculares fora das órbitas.
Salas de espera são impacientes constrangimentos, assustados tremores. Carne e sangue.
São esperas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Triste

Essa semana assisti, com minha filha de 8 anos, o programa Repórter Record, sobre drogas, álcool e seus estragos. Oportunidade mais do que aproveitada pra conversarmos a respeito (aliás, evito proibir minha filha de assistir este ou aquele programa na televisão - sou grata por ela preferir, sempre, os programas educativos). Oportunidade clara, também, pra vermos, gritantes, as contradições impressionantes dos meios de comunicação dessa partezinha desse mundinho tão pequenininho em que vivemos.
Eis que o programa terminava mostrando os efeitos nocivos do álcool, e de como a juventude vem se entregando à falsa 'soltura' que ele provoca. E não é que a propaganda imediatamente posterior ao programa era de Smirnoff? Meu Deus! Se eu não estivesse praticamente deitada na cama, teria caído pra trás, tamanha a discrepância evidente na sequência...
Fiquei inicialmente revoltada e a revolta deu lugar a uma espécie de tristeza. Uma coisa meio desesperançada, meio doída, meio cansada, não sei... uma quase morte de alguma coisa que eu pensava ainda ter lugar pra existir nesse nosso mundinho tão pequenininho...
Acho que pequena, mesmo, sou eu, e essa minha idéia de que algumas coisas poderiam ser tão diferentes, se a gente quisesse de verdade...
Que pena....
Que pena....

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Entre a palavra e o silêncio

Tem vezes que só o que eu quero é calar. Não brota de mim um único verso; sequer um verso amargo. Nada. Nenhum frase que se aproveite. Nenhuma palavra que provoque outras ao grito. Nenhum desejo de dizer. O silêncio, então, é meu companheiro, e mergulha comigo numa mudez severa, quase doída, completamente doida, daquela doideira que os outros consideram normalidade. Porque a minha palavra é louca. E quando ela cala, eu até pareço igual aos que me cercam: o orvalho me molha, a chuva me molha, o suor me molha. Quando ela fala, eu sou outra, eu não existo: a água me adormece, o calor me atiça, o tiro me aviva. Quando a palavra me fala, sou qualquer coisa que triunfa, n'algum ponto que ninguém desvenda, porque não encontra, e não encontra porque está perdido entre as folhas amareladas do livro da minha vida. A mesma vida que de vez em quando se dá o direito de calar, e, por instantes, se acreditar parte d'algo maior, té que a torrente de vocábulos exploda de novo e me obrigue a abraçar minha assumida sina: a solidão completa...
Aos 49 minutos do dia 28.09.09

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Assim seja

Estou curtindo, nesse exato instante, a sempre nova canção de Antonio Marcos, SONHOS DE UM PALHAÇO, e pensando em algumas coisas relacionadas ou não. Não sei...
Tenho me perguntado porque sou tão metida a fazer as coisas de outro jeito, que não o convencional. Minhas histórias são sempre meio marginais, se não na superfície, n'algum obscuro ponto. Não sei se sou desse tempo, nem se já pertenci a algum outro tempo (ou mundo?) que desconheço. Talvez sim, talvez não. Impossível saber. Mas também nem sei se quero saber!
Confusão? Ah... isso não é nada diante do que levo na mente... Te assustarias, acaso.
Não entendo porque insisto em andar por essas vias que de fato não são iguais às da maioria, porque isso me acumula um sem número de complicações. Ora! Seria tão mais fácil viver da mesma forma que os outros, aqueles que se dizem normais (e até devem ser, entenda, não duvido disso).
Então tento me adaptar mas tudo em mim clama por algo diferente.
Então tento me acalmar mas tudo em mim clama por algo surpreendente.
Então tento me deter mas tudo em mim clama por algo que me obrigue a me mexer.
E é muito difícil domar-se a si mesmo, já dizia Nietzsche, meu guru.
Não consigo acreditar, por exemplo, que é bom que as crianças sejam obrigadas a frequentar escolas (desde quando uma obrigação é uma coisa boa? só aí já reside uma tremenda contradição: se é bom, é buscado espontaneamente, não imposto). Que é ruim amor demais. Que Deus ajuda quem cedo madruga. Que o almoço tem que ser ao meio dia. Que querer 'saber' tem tempo, hora, lugar e principalmente limite. Que não se pode viver de poesia. Que a juventude termina. Que a velhice é sempre triste. Que é inútil lutar contra o que quer que seja. Que o medo de represálias é suficiente pra calar. Que calar é inteligente. Que o discurso vale mais que a atitude. Que a paz chega um dia, pra quem aceita as coisas como são. Que não vale a pena. O que? Tudo. Ou nada. Depende.
Pois eu digo que não aceito! Recuso-me a viver sob esse tipo de preceito, ainda que isso me custe uma solidão mortal e uma coleção interminável (jamais invejável) de incomodações-monstros.
Eu digo NÃO!
E assumo as consequências de tamanha ousadia.
Sempre foi assim.
Assim sempre será.
Que assim seja....

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Memorial


INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
“DIÁLOGOS SOBRE A GESTÃO DEMOCRÁTICA”


Ostra, escondo meu peito numa caixa sem janelas; não quero ver, nem ser vista. É curto, porém, esse instante. Pavoneio-me, então, e quero todos os olhares voltados pra mim: sagitariana. Em minhas veias correm versos soltos, escritos por um poeta desconhecido, bêbado de pimenta e luz.
Venho de uma corrente humilde: sou um dos cinco filhos diferentemente iguais, de um homem que um dia amou o cinema e a literatura, e de uma mulher que responde pelo nome 'Afeto'. Talvez daí minhas duas paixões: a Arte e o Magistério.
Nasceu de mim uma princesa, cujo nome significa 'agulha e linha'. Costurou-me as feridas e bordou um quadro de sol e alegria na parede do meu peito. Por ela viro tigre e, tigre, ataco sem pena, sem dó nem piedade, qualquer que se atreva a atravancar-lhe o caminho. Por ela fico cega. Por ela, dispo as peles e despeço-me de qualquer limite. Por ela, morro e mato sem remorso ou culpa. Alina, a parte mais importante de todas as minhas sete vidas.
Da estrada aberta à minha frente, só conheço até a curva. Depois dela, mistério. Trago leve suspeita do que possa haver além dela, mas procuro não alimentar conjecturas. Acostumei-me a viver tudo muito mais tarde que a maioria, e aprendi a apreciar o sabor tardio. A prazerosa solidão de saber que irei para algum lugar; 'onde' é um desejo. Sempre um desejo.
A Língua Portuguesa, formação e amor correspondido. A Educação, instigante desafio. As crianças, símbolos não de esperança, que a esperança é pelo que virá, e o que virá eu não sei; símbolos do que já é, do que está, da gargalhada verdadeira, do desejo de aprender, do gosto da novidade, da ausência de medo, da cura, da dependência sadia, do colorido da infância, da leveza da infância, da confiança da infância, da alegria... da alegria.
Não me acho. Aliás, me perco todos os dias. E o que encontro é alguém diferente. Sempre nova, com restos do que houve, do que foi vivido. Mas nova. Renovada, talvez. Talvez reescrita. Reeditada. Única. Como únicos são todos os que me cercam. Todos os dias. Tudo novo.
E gosto de surpresas; as boas, principalmente, mas as não tão agradáveis fazem parte do processo e as aceito. Um gosto que explicaria a quase compulsão pela busca?
Evito os porques de minhas escolhas. Se opto por este ou aquele Curso, acredito que era assim que deveria ser, e sigo em frente. Que seja o que estiver escrito que será. O resto é comigo... Estará sempre entre as conchas das minhas mãos...

(Memorial entregue na data de hoje, exigência do Curso de Gestão Escolar)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Das palavras

Alguém há de pronunciar a palavra derradeira, e então nada mais restará para se dizer. Divirto-me imaginando um mundo sem conceitos nem definições disto ou daquilo. Um olhar, então, deixaria claras todas as intenções.
Um olhar, um gesto, uma palavra. Ops! Eis-me aqui, a comprometer meu brinquedo! Palavras, não! Estou farta delas! Quero gestos e atitudes! Palavras enganam, ludibriam, iludem, provocam um sem número de mal entendidos. Quero distância delas!
Dicionario? De que me valem os sinônimos se o que ouço, leio, escrevo, digo, nada tem a ver com a verdade? Se o que sinto não pode ser descrito, se minha dor é maior que sua definição, se me perseguem as contradições e os enganos me tonteiam?
Palavras são serpentes que se enroscam no tronco da árvore primeira, e trazem na boca uma maçã. Sedução. Engano. Dor.
Palavras são fronteiras não fiscalizadas, territórios sem lei, sem dono, sem dó nem piedade. Saem muito facilmente, aos borbotões; cachoeiras descontroladas, invadem espaços e povoam desertos. Provocam ataques de riso, acendem um brilho no olhar, enternecem corações aflitos, semeiam esperanças, roubam melodias. Esperam. Machucam. Separam. Repetem enganos.
Alguém, um dia, haverá de ter coragem para pronunciar a palavra derradeira.
E depois dela... shhhhhhhhhhh....
Escrito em 16.07.2004

Crônica sobre o saber

Cada vez mais me espanta a pequenez do que acredito saber. Para que se vai à escola, afinal? Para ter nossos horizontes abertos, ou para empunhar um diploma e obter, assim, maiores oportunidades ou chances no mercado de trabalho? O diploma-espada abrindo caminhos, rumo ao sucesso? Acredito que as duas respostas estejam corretas, mas minha especial preferência é pela primeira: Horizontes. Olhares além.
Estudo para passar de ano, conquistar o 'canudo' e, assim, aumentar meu salário e ter condições de oferecer uma vida menos difícil a quem amo. Até aí, tudo bem. O saber, no entando, transcende a nota da prova no fim do sementre, do conteúdo em questão. É um novelo de lã, uma bola de neve. Não se restringe ao estudo do conteúdo de sala de aula. Teia de aranha, enreda-se na minha vontade e inflama meu desejo de busca. E, quanto mais busco, tanto mais encontro, menos penso saber, tornando a buscar. Prendo meus membros, cada vez mais firmemente, na teia que se agiganta diante e dentro de mim.
E questiono tudo. E nunca me dou por satisfeita. Patino, no eterno começo. Ser humano, altero minhas posturas, lapido minhas escolhas. Aprender e desaprender tem igual importância. Reconstruo. Destruo. Aperfeiçoo. Moldo. Cresço e, nesse processo, torno a ser criança e a ter consciência de que há tanto por fazer!
Objeto do meu desejo, o conhecimento está por toda parte. Me rodeia. Me encanta. Me seduz. Encontro com ele na letra da minha canção preferida, na conversa simples com a atendente da loja de vídeo, na conversa profunda com a irmã que admiro, na crítica da professora que respeito, nas páginas dos livros que leio, na convivência com os que me são caros, na troca com meus diferentes...
E nucna alcanço nenhuma conclusão; nenhuma resposta definitiva. E acredito fascinante cada passo desse caminho. Longo caminho; afinal, o horizonte está sempre adiante, convidando que se vá em frente. É além dele qu se esconde o pleno conhecimento.
Minha bagagem é leve. Viajo...
Escrito em 06.07.2004

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

INverno

Chove muito. O frio deu uma trégua por uma semana. Mas voltou, e trouxe na mala a chuva... Frio molhado. E a gente se sente meio perdida, meio afogada, meio congelada, com uma louca saudade do calor, do verão, do sol, meu Deus, do sol...
Parece que nunca mais vamos tirar as roupas de lã, nem as botas ou as sombrinhas. Mas nunca mais é um tempo muito longo. Muito longo? Ou longa será essa minha vontade de luz?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Que país é esse?

... e enquanto o povo quebra a cabeça pensando em como vai fazer pra pagar a conta de luz desse mês, ou pra comprar o leite do filho pequeno, o Senado discute quem faz parte das "Fard" (Forças armadas por Dilma) ou da "Gas"(Grupo de Assalto do Serra).
O nome do país? Brasil, oras... poderia ser outro? (Qual será a sigla inventada pro povo brasileiro, por esses mesmos governantes? Sugira, leitor)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quarta feira de cinzas

Quarta feira de cinzas...
mas eu não botei fogo em lugar algum!

Carnaval.
Aproveitei pra dormir cedo e tarde acordar. Aliás, os conceitos de cedo ou tarde são muito relativos. Aliás, os conceitos são todos muito relativos. Aliás, Einstein é que estava com a razão: tudo é relativo. Inclusive a relatividade.
Carnaval.
Enquanto o resto do mundo (pq o Brasil é um mundo. À parte. Mas um mundo. Alguns chamam de país, outros de Nação. Prefiro chamar de mundo. Mundinho, é verdade. Às vezes mundão. Mas mundo. E isso também é uma questão de conceito. Relativo) beija bocas desconhecidas - pra não falar de todo o resto -, eu durmo cedo e acordo tarde.
Questão de conceito.

Quarta feira de cinzas...
e eu não botei fogo em lugar algum...
25.02.2009 - 0h20min

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Vício

Não é preciso me conhecer profundamente pra saber que não suporto bêbados. Tenho pavor. Verdadeiro pânico. Não agüento. Mas atraio. Não sei a que santo agradecer. Eles me encontram. E chegam perto. Quando tenho pra onde fugir,ótimo. Só que, às vezes, não tenho escolha. Como hoje, no ônibus.
Uma porção de bancos vazios. Numa das paradas entraram dois bêbados. Com tanto lugar pra sentar, um deles ficou atrás de mim e o outro ao meu lado.
Comecei a ficar inquieta.
O de trás passava mal, fazia ânsia o tempo todo, e eu pensava: Meu Deus, daqui a pouco ele vomita na minha cabeça.
O que estava ao meu lado falava comigo sem parar. Eu não entendi uma única palavra do que a língua enrolada dele dizia, mas já estava ficando tonta com o bafo de cachaça. Pedi licença duas vezes, pra passar por ele e trocar de lugar. Não ouviu, não entendeu ou simplesmente não se dispôs a entender. Permaneceu esparramado onde estava, impedindo-me a passagem. Lá pelas tantas não agüentei mais. Passei por cima dele, literalmente, e fui sentar num dos bancos do fundo do ônibus.
Apesar da chuva, escancarei as janelas e respirei aliviada, pensando agora poder fazer o resto do trajeto em paz.
Doce ilusão.
Duas paradas adiante, o terceiro bêbado. Meu inferno astral estava completo.
Ao vê-lo cambaleante corredor adentro, quase me joguei pela janela aberta.
Decididamente, eu deveria ter ficado na cama, hoje. Um dia perfeito para descansar: chuva, ffrio, segunda-feira, férias. Qual fora mesmo o motivo que me tirara de dentro de casa? Ah, sim, a urgência de comprar porta-retratos e iscas para baratas. Compromissos INADIÁVEIS!
Pois o tal b~ebado sentou do outro lado do corredor, bem na minha direção. E me viu.
Meu sangue fervia. Era muito azar para só alguns minutos. Custava um vivente ter a tranqüilidade de deslocar-se de um lugar para outro, em um coletivo, sem maiores problemas, numa pacata cidade do Interior? Pelo visto, sim.
Então ele começou a cantar. A mim. (Alguém lá em cima não gosta de mim, de jeito nenhum...)
Desci dois pontos antes do meu destino. Ao virar a esquina, ainda vi o que passava mal pôr a cabeça pra fora da janela. Não preciso explicar o por quê.
Decididamente, eu não suporto bêbados.
Decididamente, os atraio.
Decididamente, hoje eu deveria ter ficado na cama.
19.01.2009 - 16h30min

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Da violência

A violência? A violência é maldita. Melhor é a malemolência, que não faz mal a ninguém, apesar de começar com 'mal'.
A violência suga a alma, rasga a carne, provoca chuvas de água salgada no peito das gentes. A violência é maldita e malditos os seus dissidentes. Torno-me, eu mesma, violenta, contra a violência, tamanho é o poder dessa infeliz.
Varre a decência, escurraça a decência, cospe na decência, ela, a violência.
Toma conta de tudo à sua volta e não pergunta se é bem-vinda, por se saber sempre indesejada. Mas toma conta de tudo, mesmo assim, a maldita. E nessa conta, toma as vidas de quem amamos, toma os sonhos de quem amamos, toma os amores, toma até as dores, toma os créditos, toma os desejos e toma a alma, de quem amamos.
Ceifa vidas feito campo aberto.
Ninguém a segura. Ela, a maldita; ela, a violência.
E apesar de acreditarmos que amar é que vale a pena, violentamente desejamos que os violentos se danem. Eu desejo.
Talvez uma parte dessa violência que tanto maldigo esteja arraigada em mim, também.
Maldita violência!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A vida real

Existe.
E, um dia, tu estás andando na rua, ouvindo tuas músicas preferidas, passas por 'ele', olhas, constatas O fato, és correspondida, e segues teu caminho. No entanto, de repente, no instante seguinte, 'ele' está do teu lado. Tu não ouves o que ele diz, inicialmente, porque estás com os fones. Pensas ser mais uma alucinação. Aí tiras os fones. E 'ele' está falando contigo. De verdade. E é na vida real... The first life!
Então te dás conta de que a realidade é muito mais excitante que a fantasia. Ele sorri, te elogia, tenta ser gentil. Tu sabes que faz parte do jogo. Tu sabes o que ele quer. Tu sabes o que também queres. E sabes jogar muito bem.
E esta é a vida real...
The best real life...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

De como ganhar dinheiro sem trabalhar...

Impossível? Nada! Pergunte pra qualquer político... Mas não é de política que quero falar. Esse assunto está esgotado pra mim. Época de eleições? Chega do que estamos cansados de saber. Quero falar do que ocorre o ano todo, mas que tem me incomodado muito ultimamente, talvez porque eu já não seja mais tão paciente quanto há algum tempo.
Ônibus lotado. Hora do rush. Lotado de trabalhadores. Voltam pra casa cansados, encerrando mais uma jornada de trabalho. No fim da linha, ele entra. Um homem alto, forte, obviamente saudável. Dirige-se ao fundo do coletivo. Lá, tira uma pilha de pequenos retângulos de papel, onde estão impressas algumas linhas, um punhado de pirulitos em forma de coração (que coisa meiga!) e põe-se a distribuir um papel e um pirulito para os trabalhadores cansados, já descritos acima.
No papel, a seguinte inscrição: "Estou desempregado. Sou um pai de família, como você, e preciso me sustentar. Por favor, me ajude, ficando com esse doce e doando a quantia que você considerar justa. Aceito ticket refeição ou vale transporte". Pois esse indivíduo, depois de ter entregue o tal bilhetinho (mais parecido com desaforo), volta ao fundo do ônibus e começa a recolher de volta. Quem contribui fica com o pirulito, mas devolve o bilhetinho (afinal, ele será usado novamente, com outro otário, digo, cidadão de bom coração). Quem não contribui, devolve tudo.
E aí eu fiquei prestando atenção nessa pessoa. O tamanho dele é quase um constrangimento para que a gente doe mesmo. Tem gente que chega a 'doar' um Real. UM REAL! Por um pirulito! Sabem o que é isso? E, pior, para um cara que tinha força suficiente pra ser 'chapa' de caminhoneiro. Pegar no pesado mesmo! E não me venham dizer que não tem emprego; porque na minha cidade, quem quer trabalhar e não escolhe serviço, não fica desempregado. Acontece que é muito mais fácil ficar passeando de ônibus o dia todo, extorquindo os centavos suados dos trabalhadores, e, no fim do dia, contar a grana arrecadada SEM TRABALHAR!
Outra coisa: notaram que, no tal bilhete, não tem sequer um agradecimento? Ora, quem iria se preocupar com isso, não é?
Coitados de nós...
Coitados de nós...


09.08.2008 - 02h10min

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O valor do meu voto

Época de eleições é uma beleza pra quem está com a auto-estima baixa. De repente, nos transformamos, nós, os cidadãos comuns, nas pessoas mais importantes da face da terra. De repente, somos reconhecidos nas ruas, toda hora alguém vem nos cumprimentar: apertos de mão, beijinhos, abraços 'sinceramente' carinhosos. E pensamos: puxa, quão doce é o sucesso. Chegamos a perder o ônibus para o trabalho, tanto tempo gastamos, dando atenção para tanta gente que nos aborda na rua. Mas não tem nada não, principalmente se nosso chefe também está com essa sede de 'nos reconhecer', e entregar aquele papelzinho com um número, uma sigla e a fotinho dele (coisa mais fofa). Se nos atrasamos dando atenção aos seus correligionários, tudo bem. Mas não esqueçamos que o voto de vereador é pra ele, ok?
Pois hoje estava eu no Shopping, tomando um sorvete com minha filha (está um frio de rachar por aqui, mas ontem fez calor e eu prometi que o sorvete viria hoje... criança não esquece promessa; talvez devêssemos aprender essa lição...), e lá vieram os dois candidatos, sorrisos perfeitos, apertos de mão firmes, cheios de amor pra dar. Coisa bonita de se ver. Pararam. Gastaram parte do seu precioso tempo comigo e com minha filha. Aliás, deram tanta atenção a ela, que cheguei a ficar comovida. As mães adoram que tratem bem suas crias. O interesse dos dois foi tamanho que quase os convidei para um cafezinho aqui em casa, com direito a faixa, carro de som e discurso; quiçá banda de música. Uns amores eles! Tanta peninha me deram, os dois cansados de tanto caminhar, angariando um votinho aqui, outro ali, outro acolá. Tadinhos deles... tsc,tsc...
Antes da comovida despedida, ainda ofereceram ajuda para qualquer coisa que eu precise, amanhã ou qualquer dia desses, mas de preferência depois das eleições, afinal devo entender que eles andam muito ocupados com essa história toda de campanha, né? Claro, claro que sim.
Fiquei observando enquanto eles paravam a dois passos de nós e abordavam, com o mesmo sorriso encantador, outros cidadãos, tão 'carentes' quanto eu. Minha cabeça fervia, fazendo as contas de quanto vale o meu voto. Ainda está fervendo... borbulhando... aliás, acho que vai explodir, cuidado!
Mas isso é assunto para mais tarde... Preciso encontrar uma calculadora primeiro, depois continuarei escrevendo a respeito...
NOTA: Quintana escreveu uma vez que não há nada mais encantador que sorriso de político, em época de eleições...




quarta-feira, 20 de agosto de 2008

No Estado Democrático de Direito...

... o cidadão tem o direito de saber que está sendo roubado. E por quem.
... o cidadão tem o direito de ver aqueles que o roubam, presos. Por um dia.
... o cidadão tem o direito de pagar impostos. Sem retorno.
... o cidadão tem o direito de reclamar, mas vai perder o próprio tempo.
... o cidadão NÃO tem direito a habeas corpus...

Só pra constar II

Tu tens uma coisa que eu não sei dizer. Tu provocas em mim uma coisa que eu não sei dizer. Tu arrancas de mim o que eu não sei dizer. Tu até me fazes ficar com vontade do que não ouso dizer. Tu terminas, vais embora, eu fico aqui, mas tu ficas também, mesmo tendo partido. E eu não sei dizer isso. Eu não sei como te fazer entender que continuas aqui. Que não foste desde aquela tarde. Que hoje vieste com mais força. Eu não sei. Mas tua respiração está colada ao meu ouvido. E tua pele está grudada na minha. E eu sinto o teu suor como nunca antes. E ainda te vejo tremer. Tu tens uma coisa que eu não sei dizer. Mas quero pra mim.



*Só pra constar.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Três momentos da minha infância




Tem coisas que a gente não esquece de jeito nenhum. Boas ou ruins, fazem parte da nossa história e estarão para sempre gravadas na mente. Gosto de lembrar alguns momentos que marcaram minha infância.
Nota: Brinquei de boneca até os 17 anos (a boneca mais famosa da época era a Susie e eu adorava fazer roupinhas pra ela – aliás, gosto de fazer roupinhas até hoje, mas finjo que é só pra agradar minha filha).

*Meu irmão era bem pequeno quando Sidney Magal estourou nas paradas de sucesso. O menino, então, subia no sofá da sala e imitava o ídolo, direitinho, com rebolados, caras e bocas. Dava vontade de morder aquele gurizinho de franjinha lisa, dançando e cantando Sandra Rosa Madalena, à la Sidney Magal....

*Morávamos perto de um estofaria, onde sempre sobrava espuma. Tiras de espuma de sofás que eram reformados. Pegávamos uma linha de costura da minha mãe e amarrávamos uma ponta na espuma e a outra no tornozelo.
Na casa onde morávamos tinha um corredor longo, que ficava muito escuro, se fechadas todas as portas. Íamos para lá e, depois que os olhos se acostumavam à escuridão, conseguíamos divisar só os vultos, uns dos outros. No chão, as espumas, que pareciam ter vida própria. Cobras, correndo atrás de nós! Dava um medo enorme, mesmo sabendo a verdade. Corríamos e gritávamos até cansar.

*Nos fundos da minha casa tinha um terreno acidentado, muito parecido com um precipício; era o que chamávamos, na época, de ‘pátio’. Também tínhamos o ‘caixão’; nome carinhoso dado à nossa televisão, que era muito grande e pesada, ainda em P&B, e onde assistíamos seriados como Perdidos no Espaço, Os Waltons, Bonanza, O Elo Perdido, Robinson Crusoé e outros tantos dos quais não recordo os nomes. Pois na hora de brincar, encarnávamos os personagens e aquele ‘pátio’ virava um grande cenário. Pois bem; precipitando-se sobre o precipício (sim, foi isso mesmo que eu quis dizer), tinha uma grande árvore, em cujo galho nos embalávamos, penduradas, uma de cada vez. Foi numa dessas que a minha vizinha, que brincava sempre comigo e com minha irmã avisou que queria parar de se balançar no galho, mas minha irmã continuou embalando, sem dar-lhe ouvidos. Ela não agüentou mais e soltou-se, rolando, precipício abaixo. Resultado: um braço quebrado e a primeira vez que meu pai bateu em mim e na minha irmã. Fugimos dele, nos escondemos debaixo da cama, e ele pegou a vassoura e batia com ela na gente. Detalhe: ele batia com o lado da palha, portanto, não doeu nadinha. Fingimos chorar. Quando ele saiu do quarto quase morremos de rir.




Brincávamos muito, criávamos milhões de situações, viajávamos nas asas da imaginação. Bons tempos aqueles... Bons tempos idos... Bons tempos...




(30.07.2008 - 15h30min)