terça-feira, 14 de junho de 2011

Do Medo

Conheço muito bem o medo. Por conhecê-lo tão intimamente, fico profundamente incomodada quando alguém confessa ter medo de mim, seja por esta ou aquela razão, quase sempre sem-razão.
Guardo coleções intermináveis de medos, de todas as formas, cores, tipos e tamanhos, além de um número cada vez maior de fobias, e sei o quanto isso tudo é capaz de sabotar a vida da gente. No entanto, assim como sabotam, também são eles, esses meus medos, que me constrangem a seguir adiante, por vezes encarando de frente situações bizarras, que fariam qualquer outra pessoa tremer nas bases.
Pois tenho tanto medo, que me obrigo à coragem!
Morro de medo do que não entendo, mas o que entendo me é fobia... Daí eu ser tão a favor das mudanças: apavora-me o sempre-mesmo, já que o entendo e reconheço. Mudar vem carregado de toda sorte de diferenças, o que me deixa insegura, trêmula e solitária, mas é menos assustador que o monstro do Igual.
Temo a solidão, mas é nela que escondo a matéria prima da minha Arte.
Temo estar desenvolvendo sangue da barata, mas tremo diante da possibilidade de haver sangue humano demais nas minhas veias.
Todos os dias da minha vida penso em desistir. Assim mesmo, simplesmente, como quem, de repente, decidiu que não valia a pena. Absolutamente todos os dias da minha vida me pergunto se, de fato, vale a pena. Na ausência de respostas, continuo, temerosa e covardemente. Mas continuo.
E não admito que alguém tenha medo de mim.
Não é certo temer o medo. E o medo sou eu.




14.06.2011 - 15h

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do escrever

Escrever é dolorido. Ficamos completamente despidos, diante dos olhos curiosos e críticos, de toda sorte de gente. Despidos e deformados. Isso me encanta e apavora, ao mesmo tempo. Por mais que eu use de metáforas, sempre será o meu ponto de vista que estarei afirmando. É bom que seja assim. E não é. Mas é praticamente impossível não ser assim. E é praticamente impossível que meu ponto de vista chegue às vistas do outro exatamente como mora em mim.

Outro dia escrevi um texto que considerei emocionante, e uma pessoa que me é cara deu a ele um significado tão diverso do meu, inclusive torcendo completamente a minha intenção, que eu tremi. Será assim que se sente um escritor controverso? Só que eu havia considerado o texto em questão completamente inocente (!) e ele me foi devolvido com tom de desprezo e pouca valia...

Quem lê, empresta à palavra a sua própria vivência, diversa, inclusive por coerência, do autor; portanto, os olhos que dissecam o texto também o modificam, transformando-o à sua imagem e semelhança; não no quesito "valor", mas no "jeito de ver", na forma de entender, de decifrar o que foi dito; daí a mudança, que não invalida o dito, nem o entendido, mas acrescenta-lhe significados. O ato criativo não pertence mais ao autor, uma vez que cai nas mãos do leitor. A escritura é uma parte, talvez a menor delas, da criação. Todo o resto foge ao controle do criador.

Exposto, despido e deformado, o autor se submete ao olhar do outro, sem metáforas nem trapos nem tintas, a proteger-lhe a alma. A mesma sobre a qual o olhar alheio projeta a própria, igualmente despida e deformada. Criar é dolorido, tanto para quem escreve, quanto para quem lê o escrito.

E se...

E se isso, e se aquilo e se aquele outro, são conjecturas inúteis. Como seria o estado atual SE tais e tais coisas não tivessem (ou tivessem) acontecido? Só que elas aconteceram (ou não ) e, a maioria delas, por escolha minha, tchê!

Se eu tivesse dito o que queria, lá em 1982, o que seria diferente hoje? Nunca saberei. No máximo, dá pra sentir nostalgia de uma época em que se era criança por um tempo mais longo, e depois, adolescente, quando se sabia muito pouco, ainda, sobre a vida (não como agora, em que a infância está cada vez mais reduzida e a adolescência quase não existe, pulando logo pra vida adulta, cheia de problemas e responsabilidades, sempre antes do tempo, sempre antes...).  Mas as escolhas foram acontecendo, de um jeito ou de outro, e não há o que fazer sobre o que feito está. Agora as decisões são baseadas no que se quer manter, no que é realmente importante hoje. E algumas importâncias são maiores que a gente. E SE não fossem? Sempre haverá um outro SE... 

Se a primeira dança tivesse aberto espaço pra outra, que rumo teria tomado a minha vida? Nunca saberei. 

Se eu tivesse passado no concurso do TRE, na fase da "datilografia" (quando ainda era imprescindível usar máquina de escrever, e computador era coisa de filme de ficção científica), talvez estivesse morando em Porto Alegre, sozinha, aos 20 anos, e toda a minha história fosse outra. Nunca saberei.

Se eu tivesse casado com o primeiro namorado, mesmo sabendo da sua homossexualidade, por quanto tempo eu estaria bem resolvida? Nunca saberei.

Se tivesse tido uma penca de filhos,
se não tivesse tido filhos,
se escolhesse outra profissão,
se tivesse um milhão de amigos,
se não tivesse nenhum,
se fosse mais flexível,
se tivesse votado,
se soubesse dançar,
se falasse inglês,
se fosse afinada,
se fosse desleal,
se fosse cordata,
se nem tivesse nascido,
se soubesse mentir,
por quais caminhos tudo isso me levaria? Nunca saberei.

Por isso, não gosto de conjecturas. Já sonho demais com um futuro provavelmente impossível. Que razão tão forte me faria sonhar, também, com um passado que não posso mais mudar? Sim, as nossas escolhas dependem, em parte, das escolhas dos outros, é fato. Mas nunca saberemos o que teria sido SE tivéssemos optado por quaisquer das outras mil, espalhadas no leque das possibilidades, sempre que estamos diante de uma decisão qualquer, por mínima que pareça.

É isso! Ao preferir isto àquilo, todo o meu destino modifico, por menor que tenha sido o meu movimento e por menos que aparente interferir no que considero grande.
Independente de nós,  a vida segue seu curso. Isto, aquilo e/ou aquele outro vão acontecendo. Escolhas nossas, conscientes ou não.

Ter o poder de mudar aquele dia específico, há quase 30 anos, arrancaria de mim o que/quem me é vital, hoje. Daí a inutilidade do SE...



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Tudo o que aprendi com meus ex (Capítulo II)*

Cosmólogo. Caiu no meu colo, feito estrela cadente. Tudo bem que, depois, voltou para a constelação de origem; deixou, porém, nas minhas saias, poeira de estrelas.
Cheguei à idade adulta sem saber que as estrelas são coloridas! Vergonha admitir uma coisa dessas, eu sei. Tão simples! Em qualquer Revista Superinteressante eu teria encontrado essa informação. Acontece que enxergamos apenas o que nos interessa, ainda que sempre tenha estado diante do nosso nariz. Pois pra mim as estrelas eram aquelas pontinhas brilhantes, prateadas, que estão sempre lá, mas que só aparecem de noite, porque o sol permite, pra elas não se sentirem deixadas de lado.
Impossível descrever meu espanto, quando ele me disse que as estrelas tem as cores do arco-íris! UAU! Fiquei tão emocionada, que chorei (ele chorou também; hoje penso que foi por ter descoberto o tamanho da minha burrice).
Era início de ano, possível ver direitinho o céu estrelado, quase todas as noites. Ficávamos horas, ele tentando me mostrar as constelações, e eu tentando vê-las (não consigo, até hoje, vislumbrar aquelas formas todas, mas acho o máximo saber que alguém consegue). Pura magia.
Comecei a pesquisar, feito doida. Poemas e canções  (tem um mundo, sabias? uma mais linda que a outra!) sobre estrelas, matérias sobre estrelas, as super novas, as mortas qu'inda brilham (como a lembrança que guardamos dos que nos foram caros; foram, mas o brilho permanece indefinidamente), as distâncias, a forma arredondada.
Levei para meus alunos e para minhas colegas. Baseei todo o meu trabalho de alfabetização no tema (mas isso é assunto para o blog sobre minhas práticas pedagógicas pouco convencionais). Minha turma de primeiro ano ensinou tudo o que sabia às turmas de quinta e oitava séries, e enfeitamos a escola, com estrelas de papel, redondinhas e coloridas, como as reais.


Muitos anos depois, as estrelas (as vivas, as recém mortas e as mortas há séculos) ainda estão lá, colorindo minhas insones madrugadas. A importância disso tudo brilha numa delas. Com certeza.





** Os capítulos não obedecem ordem cronológica

Tudo o que aprendi com meus ex (Capítulo I)*

Eu tinha um computador, comprado com o maior sacrifício. Ele tinha uma gráfica, e vivia grudado nos computadores. Nos finais de semana eu ia pra lá (na cidade vizinha), e mais acompanhava o trabalho dele, que namorava...
Algumas coisas a gente não faz ideia, no exato instante em que acontecem, do quanto nos serão úteis. Lembro que, na época, eu me sentia deixada de lado, ainda que essa não fosse a realidade. Ele trabalhando, eu jogando.
Em casa, meu IBM Aptiva servia só pra digitar meus trabalhos da faculdade e jogar Paciência. Era, basicamente, uma máquina de escrever, bonitinha. Internet? Que bicho é esse? É de comer? É de vestir? Como se pronuncia?
Pois foi com ele que aprendi que computador tinha outros joguinhos, também (!). E me apaixonei por Mahjong. Ficava horas jogando, enquanto ele trabalhava.
Aos poucos, com o incentivo e quase exigência dele, me atrevi a fazer outras descobertas. Ele fez  a besteira de dizer que eu poderia fuçar à vontade, já que não era bem assim pra estragar um computador. Ensinou-me a navegar, coisa que eu, então, achei a maior idiotice da face da terra. Todo empolgado, tentava me mostrar a quantidade de informações que estavam disponíveis a quem tivesse vontade de acessá-las, e paciência suficiente pra suportar as constantes quedas (Internet discada, lembram?), e aquele barulhinho insuportável de antes de conectar: um misto de chiados e zumbidos altos, depois da discagem. Odiei, mas como boa namorada queridinha que sempre fui (eu sou um amor, juro!), ouvia tudo e tentava entender. Valia a pena.
Comecei a explorar meu IBM. Já não me era suficiente o Word. Queria mais. Paciência perdeu a graça; Mahjong perdeu a graça. Já não me era suficiente limitar-me aos programas do meu computador e seus 8MB de memória (O que? Era um monte, tá?).
E de repente, num piscar de olhos, eu era uma pessoa conectada com  o mundo!
Os dias eram outros.
Meu velho IBM foi doado (... se revoltou, tadinho. Não suportava tanta informação...).
Eu continuei conectada, até hoje.

O namorado? Passou... Mas a herança foi boa. Ô!




* Um Capítulo pra cada aprendizagem, o que não é o mesmo que número de namorados, atentem.
** A série pode ser tão longa, que vire livro...hehe... talvez...rs

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Crônica/Carta

Hoje tive uma grata surpresa: reencontrei minha filha virtual, Luzinha. Chorei, de alegria. E fiquei me perguntando como é possível a gente gostar tanto assim de alguém com quem nunca se esteve, de fato.

Os amigos virtuais não estão pertinho, e faço questão de citar aqui os que amo há anos (e não foi da noite pro dia, nem com uma conversinha superficial que me apaixonei por eles. Foram horas a fio, de longas conversas, sobre os mais diversos assuntos). Naldo, que a poesia me trouxe, e que já morreu de rir dos sanduíches enormes, que eu costumo devorar toda hora. Fabi, meu irmãozinho querido, que não acredita em amizade verdadeira dos outros; na minha ele acredita (e diz que não, pra ver). Roberto, que um dia ganhará o Nobel da Literatura e com quem aprendo muito. Cadu, meu "careta" preferido, que será pra sempre meu louco amor, graças ao Teatro Mágico. Aliás, o Teatro Mágico (sim, essa "trupe" mesmo!) me trouxe outros amigos maravilhosos: Tiago, meu pequeno príncipe dos laranjais, o mistério personificado e com certeza o homem mais decente que já conheci; Luzinha, minha filha virtual, suave e sonhadora; Re, a ovelha incandescente, inteligente até não poder mais, sangue quente, que eu adoro; Mari, a profe menina, de Imperatriz.

Sim, é possível construir uma história longa, bonita e verdadeira, com quem nunca se viu e, ainda que nos percamos de vista, de vez em quando, por esses hiatos da vida real, ela, a própria vida, dá um jeitinho de nos aproximar de novo. Porque História é algo precioso demais, pra se perder por aí.

Naldo, Fabi, Roberto, Cadu, Tiago, Luzinha, Mari e Re, o tempo vem provando que laço, real ou virtual, exige Verdade (falei isso para um novo amigo, hoje; amigo esse que, espero, chegue a ser, um dia, tão próximo de mim quanto vocês). Que bom que a gente tem sabido manter esse laço.

Amo vocês!

Sofrer é perda de tempo

Tem muita gente que não sofre mais. Minha amiga, Regiane, é uma. Eu sou outra.

Não tenho mais paciência, e, confesso, nem tempo útil, pra ficar me derramando em dores, por algo que não tem volta. Amores existem pra serem livres, e é natural que, lá pelas tantas, um dos dois resolva alçar voo e conhecer outras paragens, sozinho. Ninguém gosta de ser aquele que ficou, é óbvio. Mas, daí a perder meses choramingando, ou mesmo dias, quebrando a cabeça à procura do que se fez de errado, querendo saber o que "ela tem que eu não tenho", porque ele não me amou o suficiente, porque eu não fui a primeira e inquestionável escolha dele, não, né? Foi-se o tempo...

Acontece que o sofrimento não se restringe às relações amorosas. Ele vem embutido nas preocupações do cotidiano, nas eventuais desavenças com amigos, na falta de dinheiro, na inconstância da vida. E é aí que eu aprendi a me agarrar: na inconstância de tudo. Lulu Santos, que eu adoro, cantaria: "Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo; tudo muda, o tempo todo, no mundo!" e, se muda, com que cara a gente vai querer que as coisas não nos surpreendam? E se existem surpresas boas, porque não haveria as ruins? Não gostar é uma coisa. Sofrer é outra, bem diferente. Gastar tempo sofrendo é uma terceira, e é essa que eu cortei da minha vida. Chega.

Hoje, faço tudo o que estiver ao meu alcance, pras coisas darem certo. A minha parte está feita. E caprichadinha. Se não deu, paciência. Os olhos de fora querem ver como conformismo? Que seja. O fato é que me sinto mais feliz e bem resolvida, assim. Não preciso mais guardar mágoas, nem disfarçar os olhos inchados, nem recuperar o tempo que perdi, arrasada, porque isso ou aquilo não correu conforme eu pensara. Aos 45, descubro que nada é conforme o que se pensa. Absolutamente nada. E é muito mais comum as coisas darem errado, que certo, porque há inúmeras variáveis, qualquer que seja o assunto.

Não sou assim tão pessimista, embora já tenha sido menos. Apenas vejo tudo com outros olhos, hoje. Talvez eu tenha perdido, sim, uma parte importante de doçura, que já tive, ou o saltitante entusiasmo, que, durante longos anos, me foi característico. Ganhei, com essa perda. Ganhei um tempo precioso e um pé e meio, no chão (afinal, embora o entusiasmo não seja mais assim tão saltitante, ainda me habita), desde que decidi não sofrer mais. Nem por mim (porque sou maior e melhor que qualquer motivo que me provoque dor), nem por ninguém.

Eu disse, outro dia, e repito, cada vez mais consciente de que isso é verdadeiro, sim, pra minha vida: O que não me mata, não me deixa mais forte; me deixa invencível.

Tem gente que não sofre mais. Eu sou essa gente.

Não quero enriquecer

Sabes aquela gente que quer te enriquecer a todo custo? Mas e se eu simplesmente curtir essa minha miséria? Esses caras não entendem que eu não quero morar numa mansão, não tenho a menor necessidade de ter um carro importado que nem foi lançado ainda, não estou nem aí pra cruzeiros (aliás, enjoo pacas, em barquinho, imagina num naviozão daqueles, tchê!), não quero nem saber de entrar numa loja e ir comprando tudo o que me der na telha, sem nem perguntar o preço, nem me passa pela cabeça ter, em casa, as obras dos meus escultures, pintores, músicos, escritores, preferidos.

Essa coisa de ter grana não está com nada. Os tais que vivem mandando torpedos pro meu celular, querendo que eu vá retirar o carro ganho nas promoções nas quais nunca me inscrevi, não entendem que meu negócio é suar; contar as moedinhas, do começo ao fim do mês; ficar namorando determinado objeto de longe, porque não tenho cacife nem pra chegar perto da vitrine, quanto menos adquirir o "bichinho"; morrer de vontade de conhecer Paris, e catar imagens da cidade, no Google, pra sonhar, feliz.

Que graça tem ir correndo receber os milhões que só falta ter o número da minha conta, pra que sejam meus? Assim tão fácil? Ah... assim não tem graça! Bom mesmo é ir juntando tostão a tostão, abrir uma poupança pequerrucha e saber que ela jamais vai crescer. Divertido de verdade é jogar na mega sena e acreditar que dessa vez, vai. E não ir. Isso é que é bom! O resto é bobagem.

Por isso, caras pessoas de bom coração, que insistem em me enriquecer, por favor, desistam. Sou turrona, gosto de passar trabalho, de ir de ônibus até meu "serviço", de ser uma eterna funcionária pública, de ter conhecido no máximo cinco cidades, além da minha, de ler e-books grátis, e levar minha filha pra jantar fora só uma vez por mês (sempre no pagamento).

Desistam. Não gastem tempo, lotando minha caixa de mensagens, com essas, que vocês consideram boas notícias. E devem ser mesmo, pra maioria das pessoas. Pra mim, que gosto de ser pobre, que tenho paixão por tudo o que o dinheiro não compra, essas histórias só gastam minha beleza já tão pequena. Melhor: quando eu ganhar de novo (e tenho uma surpreendente sorte nessas coisas nas quais nunca me inscrevi), transfiram todo o prêmio para os nomes de vocês mesmos. Estou publicamente dando-lhes permissão para tal (e o que se manifesta na Internet, fica pra sempre). Dividam o prêmio, rasguem ou queimem o dinheiro, ajudem uma velhinha, enriqueçam alguém mais ambicioso. Eu, não. Eu gosto mesmo dessa minha pobreza.

Madrugar





Minha irmã disse, essa semana, que meu fuso horário é outro. Pretendeu ser uma piada, mas desconfio ser a mais pura realidade. Sim, eu madrugo. Enquanto meus iguais deitam as cabeças nos travesseiros macios e mergulham num merecido descanso, eu desperto. Mereço o descanso, também, diga-se de passagem, mas o meu só chega quando os outros estão levantando, para sua lide diária. Aí é que eu deito. Madrugo.

Madrugo, porque as madrugadas me ganham. Elas e seus profundos silêncios. Elas e suas criaturas misteriosas, plenas de perguntas, sedentas de tudo, secas de nada. Madrugo, porque a escuridão é uma espécie de luz ao contrário, que me inflama de vontades, as mais diversas. Talvez, de todas, a mais importante seja a vontade de escrever. De expressar o que é praticamente inenarrável, em poemas quase sem pé nem cabeça, ou talvez poemas centopeicos, com sete cabeças, não sei...

Se rabisco ideias e pensamentos durante o dia, é nas madrugadas que eles tomam corpo e viram taça de vinho. O maior dos milagres. Quase tão grande quanto o milagre da vida: dar corpo a um pensamento e dele embriagar-se.

No entanto, de fora, acostumados ao fuso horário local, eles, os outros, entendem como preguiça o sono que chega no início da manhã. Não interessa se a noite foi fértil, se exigiu esforço, se produziu parte da obra de uma vida inteira. Interessa, isso sim, que eu durma, enquanto o mundo (esse ao qual pertenço) começa um milhão de afazeres. E as vozes repetem a ladainha de sempre, a mesma que cobra ritmos e horários iguais para todos. Uniforme.

Alheia (pero no mucho) ao reboliço provocado, recolho-me à minha insignificância justamente quando eles, os outros, acordam para a vida. E sempre vou pela sombra, já que é nas sombras que habitam meus verbos mais preciosos. Os mesmos que matam-me a gana de dizer: meu fuso horário é outro! E  que seja o que tiver de ser...

Madrugo.






quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Facebook já destruiu 28 milhões de casamentos"

A matéria é de uma superficialidade de dar medo, como, aliás, a maioria das informações que nos chegam, seja por qual via for, e a qual assunto se refira. Tudo muito pingado, a síntese da síntese, da síntese, da síntese, e mesmo essa, resumida. Dois ou três parágrafos de um assunto mais do que complexo.
Não, nunca fui casada, mas, acreditem, tenho experiência com casamento (como isso aqui não é confessionário, e boa aluna que sou, usarei a meu favor a lição das informações superficiais...), e posso afirmar, sem sombra de dúvida: uma rede social não tem o poder de destruir relacionamento algum, a não ser que o casal ou um dos que o compõem (que tanto pode ser o homem quanto a mulher), já esteja há muito tempo fora do tal casamento, embora o corpo permaneça presente. Por vezes, o corpo, o espírito e até algum carinho. Mas não me venham falar que o casamento ia bem, que tudo estava às mil maravilhas, "até que o malfeitor Facebook apareceu, pra atrapalhar tudo", que, comigo, não cola, violão!
Ou um dos dois é propenso à infidelidade, ou o casamento (coloquemos todos no mesmo saco: namoro, noivado -ainda existe?-;qualquer relacionamento oficial e socialmente estável) já ia mal, e o cônjuge resolveu se aventurar por aí...
Essa sim, é uma explicação simplista? Ora! Depois EU é que sou ingênua!
Atribuir a responsabilidade pela separação de sei lá quantos casais a uma rede social é imiscuir-se de toda e qualquer culpa. Culpa, sim! A gente fica evitando algumas palavras, e fica repetindo o que ouviu: "ah... culpa é uma palavra pesada demais. Ninguém tem culpa de nada. Tem é responsabilidade!" Pois eu digo que, pra essa nossa hipocrisia, uma pequena parte de responsabilidade é da gente e a culpa é do outro: o outro, que pode ser um computador, uma rede social, um chat, o twitter, um site de compras, um vizinho malhado e exibido (quem mandou andar sem camisa, com aquela barriga de tanquinho? Não resisti!), uma vizinha gostosa e provocativa (com aqueles peitões e uma bunda à la mulher melancia, se oferecendo pra mim, ou eu pegava, ou seria chamado de gay!), a educação que a gente teve, a cultura machista, um bar, a rua, o amigo que fica botando pilha, o momento, a carência, as facilidades da vida contemporânea, a mídia, a falta do que fazer, o stress, o álcool, a depressão, a pressão, a necessidade de sentir-se sexy, a necessidade de conquista, a necessidade de sexo, a necessidade de carinho, a necessidade de ser "bom", a necessidade de fazer caridade (tadinha-o-, estava tão sozinha-o-, eu só quis ajudar e acabei me envolvendo), a idade da loba, a idade do garanhão, a idade da pedra, a chuva, o sol, o verão, o carnaval, a viagem, a solidão, a sensação de fracasso, o cansaço, a vontade de voltar no tempo, a vontade de liberdade, a vontade de poder, a vontade de ser igual, a vontade de ser diferente, a vontade própria, a televisão, o rádio, o cinema, a literatura, o cachorro, o gato, o periquito, a vida, meu Deus, a vida!!!!!!!!!
Ando cansada de tudo isso. Dessa falsidade toda. Dessa falta de vergonha na cara; não de "fazer" as coisas, mas de não assumir o feito e a culpa (isso mesmo) por ele. Ando cansada desse monte de mentiras.
Um site de relacionamentos não tem o poder de destruir nada que já não tenha acabado ou que esteja, há muito, em vias de. Esses 28 milhões (tenho certeza de que o número é muito maior) teriam dançado, de qualquer jeito.
Com ou sem Facebook, todos temos escolha, sempre. Podemos optar pelo sim ou pelo não. E viver muito bem com o que escolhemos. Se preferirmos usar uma rede social pra encontrar parceiros fora da relacão estável, que seja! Mas considero indecente e tremendamente "moleque" dizer que foi o Facebook... Tenha uma santa paciência! Escolha outro(a) pra fazer de idiota, tchê!

 
 
 
 
 
 
Pra quem quiser conferir a superficialidade da matéria, de onde extraí o título da crônica, basta clicar aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Vida/Interior.aspx?content_id=9957

domingo, 23 de janeiro de 2011

Minha mãe conhece o mundo todo


 

Esta tarde, meus pais conversaram via MSN com uma de minhas sobrinhas, que está no Qatar. Mataram a saudade e a preocupação, naturais, quando quem se ama está fisicamente tão longe. Lá pelas tantas, minha mãe disse: "Eu também conheci o mundo inteiro: a Vendinha do Mel!". 


Pois a Dona Lina nasceu e adolesceu em Antônio Prado (RS), que se mantém pequerrucha até hoje (aliás, as duas: minha mãe e a cidade), e a tal Vendinha do Mel ficava longe de casa. Até dava pra ir a pé, mas era uma "pernada" estrada afora. Mais negócio era ir a égua (quem tem cavalo, vai a cavalo; quem tem égua, vai a égua, oras!). O que se vivia no trajeto entre a casa dela e a Vendinha: os pedregulhos, a poeira, a chuva repentina, as carroças, os peões, os uniformes de colégio, as quedas e seus respectivos machucados, os vestidos, os cães, as dificuldades e a própria égua empacada, era o mundo da menina Lina.

Depois de tanta vida vivida, de tantas idas e vindas - de mudanças de cidades, de expandir seu mundo, extrapolar as fronteiras a partir da Lua de Mel (Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Sampa, Brasília) - aos 78 anos, judiada de Acidentes Vasculares Cerebrais, afirma, sem a menor sombra de dúvida, e com o brilho que ainda conserva no olhar, ter conhecido o mundo todo. O seu mundo, o que ela conservou e que teve real significado foi aquele, o da infância. 


Temo que a força do meu mundo seja praticamente nula, diante do dela. O significado do meu mundo sem fronteiras se perde no nada, já que a mim pertence tanto, e tão pouco em mim cabe.
Falta-me uma Vendinha do Mel, talvez um barulho de pedras pisoteadas, ou uma queda de carroça, no caminho da escola. Falta-me o significante perdido.

Talvez por isso me soe poesia, das mais simples e, daí, das mais sublimes, um mundo inteiro dentro de um Armazém, uma bodeguinha qualquer, que vende mel. Talvez ele adoce esse mundão sem fronteiras, e o açúcar empreste um tanto de sentido a minha corrida, que eu nem sei onde vai dar...


Qual é o tamanho do teu mundo? Onde ele está?

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Do prazer da leitura

Sou leitora voraz, desde os meus tenros 6 anos de idade. E lá se vão décadas e décadas entre aquele começo e os dias de hoje. Pois ao longo de todo esse tempo tive medo de alguns autores, algumas vezes. Isso mesmo. Evitei, deliberadamente, algumas obras. Burrice pura, mas aconteceu.

Foi assim com Clarice Lispector (Oh!). É! Essa mesmo! Na adolescência, tive um livro dela, que ficou na estante anos após anos. Dançou entre meus dedos inúmeras vezes, e voltou para a prateleira, virgem dos meus olhos. Só muito tempo depois, já na Faculdade, tive coragem de abrir Clarice. Ah! Que delícia ME descobrir naquelas páginas. Como boa compulsiva, li tudo que tivesse a assinatura dela. E amei. E decidi não fugir de mais nenhum autor.

No entanto...

Continuei evitando Saramago por mais alguns anos, até que Ensaio Sobre a Cegueira caiu no meu colo. Mais precisamente na minha tela, já que foi um e-book que eu baixei e fiz o "sacrifício" de começar a ler. O tal "sacrifício" virou prazer rapidinho, e me tomou uma noite inteira. Sim, li este livro em especial, com a luz do computador ferindo-me os olhos, uma noite bem inteirinha. Terminei de ler às 7 horas da manhã. Completamente extasiada. Tão encantada, que pensei nele o dia todo. E as próximas duas noites foram dele, de novo. Loucura? Talvez (bem, eu nunca quis ser mentalmente sadia!).

Acreditei que não aconteceria de novo.

Ledo engano.

A noite passada trouxe de volta essa gana por uma boa leitura. Interessante que não foi o tipo de livro com o qual estou acostumada. Aliás, o próprio título já me afastaria, normalmente: DANÇANDO VALSA NOS SALÕES DO INFERNO, de Maicknuclear DeLos Santos Angeles. Mesmo assim, e a despeito da minha própria expectativa, tive uma vontade irresistível de, ao menos, começar a ler. Surpresa! Quase 8 horas da manhã, e eu terminava o que havia começado na madrugada de ontem (quer dizer, no início de hoje).

Decididamente, não é a literatura que faz parte do meu mundo. Crua. Extremamente realista. E me incomoda, me deixa desconfortável. Talvez daí tenha me prendido tanto. Maicknuclear fala de um mundo que desconheço, de um cotidiano que me é totalmente estranho, embora eu saiba existir. E, no meio de uma narrativa que tinha tudo pra ser pesada (mas não é!), pincela filosofia e lirismo na dose exata. O suficiente pra me prender, pra amarrar minhas pupilas às páginas virtuais e só soltar os nós no epílogo. 

Inteligente. 

Esta noite, tenho um encontro marcado com o mesmo livro. Preciso conferir se não deixei escapar nada, da maravilha que caiu nos meus arquivos. Aliás, espero que alguma Editora seja esperta o bastante pra publicar essa obra. Quero-a em papel, devidamente autografada, com dedicatória e tudo, e quero o prazer de escrever minhas impressões nas margens (adoro "conversar" com os autores...rs).

E quero que tu também tenhas o privilégio de ler e desejar o livro impresso. Até lá, aproveita o e-book: http://www.scribd.com/doc/39831116/Dancando-Valsa-Nos-Saloes-Do-Inferno

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Salas.... de espera

Salas de espera são impacientes. Balançam, nervosamente, braços e pernas, como se isso ajudasse a passar o tempo, que não passa; ao contrário, estaciona n'algum parapeito de janela, e fica a olhar as moçoilas e seus cabelos esvoaçantes, ao vento primaveril de outubro. Nem aí pras salas....que esperam...
Constrangedoras, as salas de espera olham para os lados, folheiam revistas novas, mastigam jornais velhos e suas notícias ultrapassadas, assistem TV a cabo, como se isso diminuísse a agonia, encaixada nos copos descartáveis, nas águas geladas, nos chás mornos, nos escaldantes cafés exageradamente açucarados. Nem aí pras salas... que esperam...
Salas de espera são assustadoras. Ensaiam caretas, inventam fantasmagóricos sons abafados, roteiros de filmes de terror, campeões de bilheteria. Nem por isso de qualidade garantida.
São amarelas. São brancas. São assépticas. Antissépticas. Medrosas.
Salas de espera são medrosas. Roem as unhas. Piscam os olhos. Viram as unhas. Desfiam os olhos. Disfarçam os tremores, que os joelhos batem e os ombros retesam, prendendo os nervos debaixo da pele.
Salas de espera são carne viva aos pedaços. Pulsações em alto e bom som. Corações disparados. Gotículas de suor, mal disfarçadas nas têmporas. Que tremem.
São esperas. Globos oculares fora das órbitas.
Salas de espera são impacientes constrangimentos, assustados tremores. Carne e sangue.
São esperas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Triste

Essa semana assisti, com minha filha de 8 anos, o programa Repórter Record, sobre drogas, álcool e seus estragos. Oportunidade mais do que aproveitada pra conversarmos a respeito (aliás, evito proibir minha filha de assistir este ou aquele programa na televisão - sou grata por ela preferir, sempre, os programas educativos). Oportunidade clara, também, pra vermos, gritantes, as contradições impressionantes dos meios de comunicação dessa partezinha desse mundinho tão pequenininho em que vivemos.
Eis que o programa terminava mostrando os efeitos nocivos do álcool, e de como a juventude vem se entregando à falsa 'soltura' que ele provoca. E não é que a propaganda imediatamente posterior ao programa era de Smirnoff? Meu Deus! Se eu não estivesse praticamente deitada na cama, teria caído pra trás, tamanha a discrepância evidente na sequência...
Fiquei inicialmente revoltada e a revolta deu lugar a uma espécie de tristeza. Uma coisa meio desesperançada, meio doída, meio cansada, não sei... uma quase morte de alguma coisa que eu pensava ainda ter lugar pra existir nesse nosso mundinho tão pequenininho...
Acho que pequena, mesmo, sou eu, e essa minha idéia de que algumas coisas poderiam ser tão diferentes, se a gente quisesse de verdade...
Que pena....
Que pena....

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Entre a palavra e o silêncio

Tem vezes que só o que eu quero é calar. Não brota de mim um único verso; sequer um verso amargo. Nada. Nenhum frase que se aproveite. Nenhuma palavra que provoque outras ao grito. Nenhum desejo de dizer. O silêncio, então, é meu companheiro, e mergulha comigo numa mudez severa, quase doída, completamente doida, daquela doideira que os outros consideram normalidade. Porque a minha palavra é louca. E quando ela cala, eu até pareço igual aos que me cercam: o orvalho me molha, a chuva me molha, o suor me molha. Quando ela fala, eu sou outra, eu não existo: a água me adormece, o calor me atiça, o tiro me aviva. Quando a palavra me fala, sou qualquer coisa que triunfa, n'algum ponto que ninguém desvenda, porque não encontra, e não encontra porque está perdido entre as folhas amareladas do livro da minha vida. A mesma vida que de vez em quando se dá o direito de calar, e, por instantes, se acreditar parte d'algo maior, té que a torrente de vocábulos exploda de novo e me obrigue a abraçar minha assumida sina: a solidão completa...
Aos 49 minutos do dia 28.09.09

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Assim seja

Estou curtindo, nesse exato instante, a sempre nova canção de Antonio Marcos, SONHOS DE UM PALHAÇO, e pensando em algumas coisas relacionadas ou não. Não sei...
Tenho me perguntado porque sou tão metida a fazer as coisas de outro jeito, que não o convencional. Minhas histórias são sempre meio marginais, se não na superfície, n'algum obscuro ponto. Não sei se sou desse tempo, nem se já pertenci a algum outro tempo (ou mundo?) que desconheço. Talvez sim, talvez não. Impossível saber. Mas também nem sei se quero saber!
Confusão? Ah... isso não é nada diante do que levo na mente... Te assustarias, acaso.
Não entendo porque insisto em andar por essas vias que de fato não são iguais às da maioria, porque isso me acumula um sem número de complicações. Ora! Seria tão mais fácil viver da mesma forma que os outros, aqueles que se dizem normais (e até devem ser, entenda, não duvido disso).
Então tento me adaptar mas tudo em mim clama por algo diferente.
Então tento me acalmar mas tudo em mim clama por algo surpreendente.
Então tento me deter mas tudo em mim clama por algo que me obrigue a me mexer.
E é muito difícil domar-se a si mesmo, já dizia Nietzsche, meu guru.
Não consigo acreditar, por exemplo, que é bom que as crianças sejam obrigadas a frequentar escolas (desde quando uma obrigação é uma coisa boa? só aí já reside uma tremenda contradição: se é bom, é buscado espontaneamente, não imposto). Que é ruim amor demais. Que Deus ajuda quem cedo madruga. Que o almoço tem que ser ao meio dia. Que querer 'saber' tem tempo, hora, lugar e principalmente limite. Que não se pode viver de poesia. Que a juventude termina. Que a velhice é sempre triste. Que é inútil lutar contra o que quer que seja. Que o medo de represálias é suficiente pra calar. Que calar é inteligente. Que o discurso vale mais que a atitude. Que a paz chega um dia, pra quem aceita as coisas como são. Que não vale a pena. O que? Tudo. Ou nada. Depende.
Pois eu digo que não aceito! Recuso-me a viver sob esse tipo de preceito, ainda que isso me custe uma solidão mortal e uma coleção interminável (jamais invejável) de incomodações-monstros.
Eu digo NÃO!
E assumo as consequências de tamanha ousadia.
Sempre foi assim.
Assim sempre será.
Que assim seja....

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Memorial


INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
“DIÁLOGOS SOBRE A GESTÃO DEMOCRÁTICA”


Ostra, escondo meu peito numa caixa sem janelas; não quero ver, nem ser vista. É curto, porém, esse instante. Pavoneio-me, então, e quero todos os olhares voltados pra mim: sagitariana. Em minhas veias correm versos soltos, escritos por um poeta desconhecido, bêbado de pimenta e luz.
Venho de uma corrente humilde: sou um dos cinco filhos diferentemente iguais, de um homem que um dia amou o cinema e a literatura, e de uma mulher que responde pelo nome 'Afeto'. Talvez daí minhas duas paixões: a Arte e o Magistério.
Nasceu de mim uma princesa, cujo nome significa 'agulha e linha'. Costurou-me as feridas e bordou um quadro de sol e alegria na parede do meu peito. Por ela viro tigre e, tigre, ataco sem pena, sem dó nem piedade, qualquer que se atreva a atravancar-lhe o caminho. Por ela fico cega. Por ela, dispo as peles e despeço-me de qualquer limite. Por ela, morro e mato sem remorso ou culpa. Alina, a parte mais importante de todas as minhas sete vidas.
Da estrada aberta à minha frente, só conheço até a curva. Depois dela, mistério. Trago leve suspeita do que possa haver além dela, mas procuro não alimentar conjecturas. Acostumei-me a viver tudo muito mais tarde que a maioria, e aprendi a apreciar o sabor tardio. A prazerosa solidão de saber que irei para algum lugar; 'onde' é um desejo. Sempre um desejo.
A Língua Portuguesa, formação e amor correspondido. A Educação, instigante desafio. As crianças, símbolos não de esperança, que a esperança é pelo que virá, e o que virá eu não sei; símbolos do que já é, do que está, da gargalhada verdadeira, do desejo de aprender, do gosto da novidade, da ausência de medo, da cura, da dependência sadia, do colorido da infância, da leveza da infância, da confiança da infância, da alegria... da alegria.
Não me acho. Aliás, me perco todos os dias. E o que encontro é alguém diferente. Sempre nova, com restos do que houve, do que foi vivido. Mas nova. Renovada, talvez. Talvez reescrita. Reeditada. Única. Como únicos são todos os que me cercam. Todos os dias. Tudo novo.
E gosto de surpresas; as boas, principalmente, mas as não tão agradáveis fazem parte do processo e as aceito. Um gosto que explicaria a quase compulsão pela busca?
Evito os porques de minhas escolhas. Se opto por este ou aquele Curso, acredito que era assim que deveria ser, e sigo em frente. Que seja o que estiver escrito que será. O resto é comigo... Estará sempre entre as conchas das minhas mãos...

(Memorial entregue na data de hoje, exigência do Curso de Gestão Escolar)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Das palavras

Alguém há de pronunciar a palavra derradeira, e então nada mais restará para se dizer. Divirto-me imaginando um mundo sem conceitos nem definições disto ou daquilo. Um olhar, então, deixaria claras todas as intenções.
Um olhar, um gesto, uma palavra. Ops! Eis-me aqui, a comprometer meu brinquedo! Palavras, não! Estou farta delas! Quero gestos e atitudes! Palavras enganam, ludibriam, iludem, provocam um sem número de mal entendidos. Quero distância delas!
Dicionario? De que me valem os sinônimos se o que ouço, leio, escrevo, digo, nada tem a ver com a verdade? Se o que sinto não pode ser descrito, se minha dor é maior que sua definição, se me perseguem as contradições e os enganos me tonteiam?
Palavras são serpentes que se enroscam no tronco da árvore primeira, e trazem na boca uma maçã. Sedução. Engano. Dor.
Palavras são fronteiras não fiscalizadas, territórios sem lei, sem dono, sem dó nem piedade. Saem muito facilmente, aos borbotões; cachoeiras descontroladas, invadem espaços e povoam desertos. Provocam ataques de riso, acendem um brilho no olhar, enternecem corações aflitos, semeiam esperanças, roubam melodias. Esperam. Machucam. Separam. Repetem enganos.
Alguém, um dia, haverá de ter coragem para pronunciar a palavra derradeira.
E depois dela... shhhhhhhhhhh....
Escrito em 16.07.2004

Crônica sobre o saber

Cada vez mais me espanta a pequenez do que acredito saber. Para que se vai à escola, afinal? Para ter nossos horizontes abertos, ou para empunhar um diploma e obter, assim, maiores oportunidades ou chances no mercado de trabalho? O diploma-espada abrindo caminhos, rumo ao sucesso? Acredito que as duas respostas estejam corretas, mas minha especial preferência é pela primeira: Horizontes. Olhares além.
Estudo para passar de ano, conquistar o 'canudo' e, assim, aumentar meu salário e ter condições de oferecer uma vida menos difícil a quem amo. Até aí, tudo bem. O saber, no entando, transcende a nota da prova no fim do sementre, do conteúdo em questão. É um novelo de lã, uma bola de neve. Não se restringe ao estudo do conteúdo de sala de aula. Teia de aranha, enreda-se na minha vontade e inflama meu desejo de busca. E, quanto mais busco, tanto mais encontro, menos penso saber, tornando a buscar. Prendo meus membros, cada vez mais firmemente, na teia que se agiganta diante e dentro de mim.
E questiono tudo. E nunca me dou por satisfeita. Patino, no eterno começo. Ser humano, altero minhas posturas, lapido minhas escolhas. Aprender e desaprender tem igual importância. Reconstruo. Destruo. Aperfeiçoo. Moldo. Cresço e, nesse processo, torno a ser criança e a ter consciência de que há tanto por fazer!
Objeto do meu desejo, o conhecimento está por toda parte. Me rodeia. Me encanta. Me seduz. Encontro com ele na letra da minha canção preferida, na conversa simples com a atendente da loja de vídeo, na conversa profunda com a irmã que admiro, na crítica da professora que respeito, nas páginas dos livros que leio, na convivência com os que me são caros, na troca com meus diferentes...
E nucna alcanço nenhuma conclusão; nenhuma resposta definitiva. E acredito fascinante cada passo desse caminho. Longo caminho; afinal, o horizonte está sempre adiante, convidando que se vá em frente. É além dele qu se esconde o pleno conhecimento.
Minha bagagem é leve. Viajo...
Escrito em 06.07.2004